O DIASP | Notícias de Última Hora: a moeda não é mais a verdade

Nicholas M. Merlone

Publicado originalmente no Jornal O DIASP (veja aqui!)

Cristiano Ronaldo tem cerca de 677 milhões de seguidores no Instagram — mais que a população dos Estados Unidos e do Brasil somadas. Obama tem 43 milhões; Trump, 44. Um ex-presidente e um presidente em exercício, somados, não chegam a um sétimo do que um jogador de futebol acumula sozinho. E o caso mais revelador nem é o de Ronaldo, que construiu isso em quinze anos: é o de Vozinha, goleiro reserva de Cabo Verde que tinha 50 mil seguidores antes da Copa e terminou o torneio com 25 milhões — mais que Iker Casillas, ídolo de carreira inteira —, só porque o narrador da CazéTV pediu ao vivo que a audiência o seguisse. Não foi mérito acumulado. Foi um comando de call-to-action que a internet obedeceu em tempo real.

Isso expõe a mecânica: a rede social não pesa relevância histórica, pesa gatilho imediato. Um pedido carismático, um vídeo de vinte segundos, uma imagem que confirma o que a pessoa já acha — tudo isso converte mais rápido do que décadas de carreira ou anos de conteúdo bem apurado. Não é que o público piorou de gosto. É que a arquitetura da plataforma cobra menos esforço cognitivo de quem reage por impulso do que de quem escolhe por critério, e o sistema aprendeu a empilhar recompensa em cima do impulso.

O jornalismo sentiu isso primeiro, e sentiu como perda de moeda de troca. Cásper Libero, Boechat e Dan Rather operavam num modelo em que o erro tinha preço: Rather perdeu a cadeira da CBS por uma matéria mal apurada, e Boechat corrigia no ar porque a credibilidade era o único ativo que valia proteger. Hoje o cálculo se inverteu — o erro viraliza mais que o acerto, porque indignação é engajamento de graça, e ninguém cancela contrato por causa dela. Trocamos apuração por indignação, e debate de ideias por ataque a quem as defende: é mais barato, mais viral e não exige nenhum trabalho intelectual. O ad hominem virou modelo de negócio porque o algoritmo paga melhor por ele do que por argumento.

Ainda há esperança, com cautela. Cresce a migração para newsletters, grupos fechados e exclusivos e assinaturas de jornalismo independente — audiência que paga literalmente para escapar do feed. Nichos profissionais provam que profundidade tem mercado, desde que bem embalada em formato acessível. E a alfabetização midiática, ainda devagar, começa a virar pauta pública. O algoritmo não vai mudar sozinho — quem muda é quem aprende a distinguir estímulo de informação antes de compartilhar. A saída não é vencer o jogo do algoritmo, é jogá-lo sem entregar a alma para ele.

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